86% dos responsáveis pelo cuidado de crianças autistas são mães, e 70% dos atestados para acompanhamento de filhos em consultas médicas são apresentados por mulheres
jun 2025
Enquanto muitas mães celebram o Dia das Mães com descanso ou encontro em família, outras enfrentam uma rotina marcada por consultas médicas, terapias e jornadas exaustivas fora e dentro de casa. O Brasil tem 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), representando 1,2% da população nacional, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A complexidade dessa realidade se reflete diretamente no ambiente corporativo. Um levantamento revelou que 70% dos atestados para acompanhamento de filhos e familiares em consultas médicas são apresentados por mulheres. Esse dado não apenas evidencia a sobrecarga enfrentada por mães e cuidadoras, mas também levanta a reflexão sobre como políticas corporativas mais inclusivas e empáticas podem impactar positivamente o mercado de trabalho brasileiro.
No caso das mães de crianças autistas, a tripla jornada, que inclui também gerenciar as responsabilidades domésticas e manter o desempenho no trabalho, implica em um profundo impacto na saúde física e emocional dessas profissionais. O estudo "Retratos do Autismo no Brasil", realizado pela Genial Care, observou que 86% das pessoas responsáveis pelo cuidado de crianças autistas são mães. Além disso, 68% das cuidadoras afirmam não ter tempo para descanso ou autocuidado.
“As consequências são evidentes e quantificáveis: aumento nos índices de ausências, sinais de exaustão psíquica e, em muitos casos, afastamento definitivo do mercado de trabalho. A carência de políticas institucionais estruturadas e de mecanismos de suporte adequados para essas famílias têm um impacto direto na manutenção das desigualdades de gênero no ambiente corporativo”, explica a vice-presidente clínica da Genial Care, rede de cuidado em saúde especializada no atendimento a crianças autistas e suas famílias, Thalita Possmoser.
Sem esse suporte, muitas dessas profissionais reduzem carga horária, recusam promoções ou deixam o mercado de trabalho. Diante desse cenário, abre-se para as empresas uma oportunidade estratégica de se posicionar como parceiras de suas colaboradoras, ao implementar medidas de apoio que vão além do benefício individual e contribuem para fortalecer, de forma consistente, a cultura organizacional como um todo.
Como apoiar mães atípicas?
O suporte às mães ou cuidadoras de crianças com autismo pode ser estruturado mediante múltiplas abordagens integradas e complementares:
1) Flexibilidade laboral como ferramenta de inclusão:
A implementação de horários flexíveis ou modalidades de trabalho remoto representa uma das medidas mais eficazes para apoiar as profissionais. Muitas precisam conciliar com as demandas do tratamento contínuo de seus filhos, que frequentemente inclui diversas sessões terapêuticas semanais.
“A adoção de maior flexibilidade temporal e espacial por parte das empresas contribui significativamente para o equilíbrio entre as demandas profissionais e pessoais. Essa medida está associada à redução dos níveis de estresse percebido e, de forma concomitante, ao aumento da produtividade e do engajamento no contexto laboral”, destaca Thalita Possmoser, vice-presidente da Genial Care.
2) Cobertura médica abrangente e especializada:
Segundo o estudo da Genial, 65% das pessoas cuidadoras de crianças com TEA relatam enfrentar dificuldades financeiras significativas, enquanto 70% vivenciam exaustão mental devido à intensa carga cognitiva envolvida no tratamento multidisciplinar. Esses números revelam a dimensão do desafio financeiro que essas famílias enfrentam. Nesse caso, a oferta de plano de saúde como política geral da empresa contribui para a diminuição deste impacto.
3) Programas de educação e conscientização organizacional:
A implementação de programas educativos sobre autismo desempenha um papel fundamental na construção de uma cultura corporativa verdadeiramente inclusiva. Palestras, workshops e campanhas de conscientização podem desmistificar o TEA, combater preconceitos enraizados e fomentar uma atmosfera de empatia e compreensão mútua.
“Empresas que promovem tais iniciativas não apenas apoiam diretamente quem cuida, mas também criam um ambiente mais acolhedor e compreensivo para todos os colaboradores. Essa transformação cultural pode resultar em maior coesão da equipe, um ambiente de trabalho mais harmonioso e, consequentemente, aumento da produtividade coletiva”, afirma a vice-presidente clínica.
4) Suporte integral à saúde mental:
A saúde mental das mães e cuidadoras representa um aspecto frequentemente negligenciado, mas de absoluta importância. A constante preocupação com o desenvolvimento dos filhos, combinada com as pressões profissionais cotidianas, pode gerar níveis elevados de estresse crônico e síndrome de burnout.
“A implementação de programas de apoio psicológico, a oferta de sessões de terapia subsidiadas e a criação de espaços seguros onde as funcionárias possam expressar suas dificuldades e preocupações são medidas que promovem o bem-estar integral. Essas ações refletem-se positivamente na saúde geral do colaborador e, consequentemente, em sua performance e satisfação profissional”, completa Possmoser.
O impacto da inclusão no trabalho
Algumas organizações pioneiras já começaram a se destacar no cenário nacional ao oferecer benefícios específicos voltados à maternidade e parentalidade atípicas, incluindo dias de folga dedicados ao acompanhamento terapêutico, reembolso de terapias não cobertas pelos planos de saúde tradicionais e a criação de grupos de apoio entre funcionários com vivências similares. O caminho da inclusão autêntica passa necessariamente não apenas pela escuta ativa das necessidades dos colaboradores, mas também pela transformação efetiva desse diálogo em políticas permanentes, sustentáveis e genuinamente alinhadas com os valores e a missão da empresa.
Para Thalita, criar uma cultura organizacional que reconheça e valorize os desafios únicos da maternidade atípica não apenas humaniza o ambiente de trabalho, mas também fortalece significativamente o senso de pertencimento e propósito entre todos os colaboradores. “Essa visão ampla e empática reflete-se diretamente na reputação da marca empregadora, na capacidade de atração e retenção de talentos e nos resultados organizacionais de longo prazo”, ressalta.
Investir em flexibilidade no trabalho, programas de conscientização, suporte à saúde mental e planos de saúde de qualidade contribui para a construção de um ambiente genuinamente inclusivo e solidário. Os efeitos se estendem para além dos colaboradores diretamente impactados, reverberando em toda a equipe e impulsionando organizações mais preparadas para lidar com a diversidade e, consequentemente, uma sociedade mais justa e empática. A inclusão dessas mães no mercado de trabalho não depende de discurso, mas de estrutura. E, para muitas delas, isso ainda não é realidade.
“Transformar o ambiente corporativo em um verdadeiro aliado para a inclusão e o desenvolvimento pleno de todos os profissionais não apenas melhora substancialmente a qualidade de vida dos colaboradores diretamente envolvidos, mas também enriquece a organização como um todo, tornando-a mais resiliente, inovadora e estrategicamente preparada para enfrentar os desafios do futuro do trabalho”, finaliza Thalita.
