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Keyrus Brasil

Inteligência Artificial no campo: como o agronegócio brasileiro está sendo transformado ano após ano?

Por Rodrigo Cruz Vice-presidente de Estratégia de Crescimento e Inovação de Portfólio da Keyrus no Brasil

jun 2025

O agronegócio brasileiro vive um novo momento. Mais do que produtividade e escala — atributos historicamente associados ao setor —, a nova fronteira da competitividade passa pela capacidade de utilizar dados de forma inteligente. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) projeta um crescimento de 7,4% no VBP do agronegócio, totalizando uma receita de R$ 1,43 trilhão até o final de 2025. O segmento agrícola deve alcançar R$ 937,55 bilhões, enquanto o valor bruto da produção pecuária deve crescer 9,2%, chegando a R$ 495,13 bilhões.

Os investimentos no setor reforçam essa tendência: R$25,6 bilhões devem ser aplicados em soluções tecnológicas no campo no próximo ano, um aumento de 21% em relação a 2024, segundo projeções da CNA em parceria com o CEPEA-USP. Desse total, cerca de 45% será direcionado a tecnologia de coleta e análise de dados, integração de plataformas e aplicação de inteligência artificial (IA) nas operações agrícolas.

O agronegócio brasileiro já se destaca globalmente pela produtividade e pela escala. Mas o próximo salto competitivo está diretamente ligado à capacidade de transformar dados em decisões mais rápidas e precisas através do uso da IA.

Além disso, o mercado global de IoT agrícola, por exemplo, deve atingir US$ 20,9 bilhões, impulsionado pela demanda por maior eficiência e sustentabilidade, conforme dados da McKinsey. No Brasil, a conectividade no campo já é tendência consolidada, mas o custo ainda limita a adoção em larga escala.

Impactos reais no campo

A aplicação dessas tecnologias vai além da teoria: ela já gera resultados concretos. Um estudo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), publicado em fevereiro de 2025, aponta que a digitalização nas lavouras monitoradas resultou em um aumento médio de 18,7% na produtividade, além de reduzir em 12,3% o consumo de insumos agrícolas, como fertilizantes e defensivos.

O mesmo levantamento mostra que propriedades com alto grau de digitalização apresentam rentabilidade 23% superior em relação àquelas que operam com modelos tradicionais de gestão.

Os produtores estão conseguindo reduzir o uso de insumos e, ao mesmo tempo, aumentar o desempenho das lavouras. Isso se traduz em operações mais sustentáveis, rentáveis e resilientes.

Uma abordagem integrada: antes, dentro e depois da porteira

A verdadeira inovação no agronegócio moderno reside na compreensão de que a digitalização deve abranger toda a cadeia produtiva, não apenas as operações no campo. Essa visão sistêmica divide-se em três frentes principais:

Antes da porteira

Nesta etapa, o foco está na digitalização de processos que antecedem a produção, incluindo o desenvolvimento de cultivares com auxílio de inteligência artificial, planejamento estratégico de safras e otimização da cadeia de suprimentos de insumos.

Dentro da porteira

No campo propriamente dito, as tecnologias incluem centros de operações agrícolas (COA), monitoramento de máquinas com telemetria, modelos preditivos para aplicação precisa de insumos e sistemas de visão computacional para detecção precoce de pragas e doenças.

Depois da porteira

Esta fase engloba a agroindústria, logística, distribuição e varejo, com soluções como plataformas de e-commerce especializadas, otimização de rotas de transporte, previsão de demanda utilizando machine learning e gestão inteligente de estoques.

Hoje, é fundamental enxergar o agronegócio como um ecossistema integrado. Não adianta digitalizar apenas uma etapa do processo produtivo se as outras continuarem desconectadas. A transformação precisa ser sistêmica para gerar eficiência real. Por isso, é importante contar com clientes e parceiros, principalmente antes e depois da porteira, que levam as melhores soluções em tecnologia aos produtores rurais.

Casos de sucesso demonstram o potencial da tecnologia

Entre os exemplos que confirmam o potencial dessas inovações está a Tereos, uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do país. A empresa implementou um Centro de Operações Agroindustriais (COA) para unificar as áreas agrícola e industrial, com apoio da Keyrus, multinacional líder em consultoria de inteligência de dados e transformação de negócios. A estimativa é de economizar R$25 milhões por ano com a iniciativa.

Na Cooperativa Agroindustrial Holambra, a Keyrus apoiou o desenvolvimento de uma plataforma digital voltada à interação com cooperados. O projeto fortaleceu o relacionamento com os produtores e modernizou o acesso a informações sobre produção, crédito e compras de insumos.

Além disso, um dos cases mais avançados envolveu a criação de um sistema de IA generativa voltado à área jurídica de uma grande empresa do setor. Utilizando modelos de linguagem treinados com documentos legais da companhia, a solução permite buscas e consultas automatizadas a contratos complexos, aumentando a produtividade da equipe e reduzindo riscos.

Outro caso emblemático é o de uma grande companhia do setor que enfrentava gargalos na gestão de contratos com fornecedores. A solução envolveu a implementação de um pipeline automatizado de dados — um fluxo digital para organizar e processar informações — combinado com o uso de modelos de linguagem natural (LLMs), semelhantes ao ChatGPT, adaptados ao vocabulário jurídico da empresa. O sistema permite consultas conversacionais instantâneas a documentos complexos, economizando horas de trabalho manual.

Essa transformação na gestão contratual mostra como a inteligência artificial pode ser aplicada em frentes diversas — de tarefas simples, como um assistente virtual, até sistemas avançados capazes de analisar imagens em tempo real para detectar pragas no campo.

Perspectivas e desafios até 2030

Segundo uma pesquisa da McKinsey & Company, divulgada em abril de 2025, o mercado brasileiro de tecnologias agrícolas deve movimentar R$ 42 bilhões até 2030. Apesar dos avanços, a digitalização no campo ainda esbarra em gargalos importantes, sendo o principal deles a conectividade em áreas remotas. Infelizmente, ainda existem produtores com sensores de última geração, mas sem sinal de internet estável, fazendo com que a entrega do valor pleno da tecnologia trave.

No entanto, para contornar as limitações, será necessário adotar soluções que funcionem parcialmente offline, sincronizando dados assim que o sinal retorna. Outro ponto de atenção é a maturidade digital das equipes. Mais do que tecnologia, é preciso formar profissionais capazes de interpretá-la, por isso, as organizações precisarão investir em treinamentos, programas de capacitação e soluções com interfaces intuitivas, porque a transformação digital também é uma transformação humana.

A margem para decisões baseadas apenas na intuição ou na experiência está diminuindo. Entramos em uma era em que a capacidade analítica definirá o sucesso ou o fracasso das operações agrícolas. E isso vale para pequenos, médios e grandes empresas do agronegócio.