Sylvestre Mergulhão, CEO da ImpulsoPeople Tech especializada em outsourcing de times tec
jul 2025

Nos últimos tempos, tenho observado com crescente inquietação um movimento preocupante no setor de tecnologia brasileiro: a obsessão por indicadores de produtividade que ignoram completamente o fator humano por trás dos resultados. Mesmo em 2025, após tantos avanços em transformação digital e reconfigurações no ambiente de trabalho, ainda encontro gestores que enxergam a produtividade apenas como sinônimo de entregas e acreditam que liderar bem é cumprir metas baseadas unicamente em KPIs tradicionais.
Como profissional que acompanha de perto a evolução do mercado de trabalho, especialmente o setor tech, posso afirmar categoricamente: essa visão simplista não apenas está equivocada, mas está custando caro para as empresas brasileiras.
Os números que deveriam assustar qualquer executivo
Quando analiso os dados mais recentes sobre liderança tech no Brasil, encontro um cenário que deveria servir de alerta para todo executivo. O Panorama da Liderança Tech no Brasil 2023/2024, conduzido pela Strides Tech Community em parceria com a Endeavor, ouviu mais de mil líderes do setor e revela dados alarmantes.
30% dos líderes de tecnologia perdem produtividade por excesso de reuniões, enquanto 28% são impactados por pedidos de trabalho não planejados. Mais preocupante ainda: 56% das lideranças afirmaram que o tempo dedicado à empresa não é suficiente para executar suas atividades.
Esses números não refletem incompetência ou falta de organização. Eles expõem uma realidade brutal: nossos modelos de gestão estão falhando em proteger o que realmente importa — o contexto e a capacidade de entrega sustentável das equipes.
A crise invisível que está destruindo talentos
O estudo da Strides revela algo ainda mais alarmante: entre 47% e 68% dos líderes que enfrentam excesso de reuniões, pedidos imprevistos e sobrecarga consideram trocar de empresa no curto prazo. Não é coincidência que apenas 35% dos líderes que realizam mais atribuições do que o previsto no escopo do cargo afirmaram estar felizes no trabalho.
A matemática é implacável: quando medimos produtividade apenas por entregas, ignoramos que estamos queimando nossos melhores talentos. 94% dos fundadores de startups e scale-ups relataram ter vivido pelo menos uma condição adversa de saúde mental, com ansiedade sendo a mais frequente (85,6%), seguida por burnout (37%).
Ignorar esse quadro é insistir em um modelo de gestão ultrapassado — e profundamente ineficiente. Quando o bem-estar das lideranças está comprometido, o impacto se espalha por toda a organização. Equipes desmotivadas, alta rotatividade, decisões apressadas e projetos que não se sustentam no longo prazo são apenas alguns dos efeitos colaterais de uma cultura que enxerga pessoas como máquinas de produção.
O paradoxo da liderança moderna
O mercado de tecnologia, por definição, deveria estar na vanguarda das transformações corporativas. No entanto, seguimos replicando práticas de controle e comando que pertencem a um passado industrial, não a um futuro digital. A liderança, que deveria ser um agente de transformação, acaba sendo engolida por rotinas improdutivas e um sistema que recompensa a exaustão.
A produtividade real exige intenção, autonomia e propósito. Líderes que vivem apagando incêndios ou cumprindo tarefas além de sua alçada não conseguem pensar estrategicamente, desenvolver seus times nem inovar. A consequência é clara: organizações estagnadas, que até entregam no curto prazo, mas comprometem seriamente a sustentabilidade de seus resultados.
Os dados confirmam essa realidade: 18,37% dos profissionais citaram "liderança ruim ou despreparada" como principal motivo para troca de empresa — um percentual que supera até mesmo questões salariais (17,14%) e falta de desenvolvimento de carreira (16,73%).
As métricas que realmente deveriam importar
Baseado na análise dos dados disponíveis, identifiquei que as empresas mais bem-sucedidas não medem apenas o que foi entregue, mas como foi entregue. As novas métricas da liderança eficaz incluem:
Capacidade de proteção do contexto: 11,26% dos líderes tech identificaram "filtrar a pressão que vem de outras áreas" como um dos principais desafios. Líderes excepcionais não apenas delegam tarefas — eles filtram ruído.
Criação de valor sustentável: não basta entregar; é preciso entregar de forma que o time possa continuar entregando. Profissionais em regime híbrido, com um ou dois encontros presenciais por semana, demonstraram alto índice de realização profissional, com 9 em cada 10 líderes se sentindo realizados.
Desenvolvimento de autonomia: 17,19% dos líderes não sabem o que a empresa considera necessário para assumir posições superiores. Líderes eficazes criam clareza sobre critérios de crescimento e desenvolvimento.
O caminho para a transformação
Precisamos abandonar a ilusão de que métricas frias são suficientes para avaliar desempenho. Os KPIs seguem importantes, mas devem ser complementados por indicadores de saúde organizacional, bem-estar e clima. A pergunta central não pode ser apenas "o que entregamos?", mas "em que condições entregamos isso?".
Além disso, é urgente revisar a estrutura das lideranças tech: qual o real escopo de atuação dessas pessoas? Que tipo de apoio elas têm para exercer sua função com qualidade? Como suas agendas estão organizadas para equilibrar operação e estratégia? Essas respostas precisam entrar na pauta de qualquer empresa que deseja, de fato, construir um ambiente inovador, resiliente e competitivo.
Sinais de esperança no horizonte
Felizmente, há indicadores positivos. 78,5% das lideranças de engenharia e dados estão otimistas em relação ao futuro. Entre os otimistas, 35,71% acreditam estar preparados para enfrentar possíveis mudanças no mercado.
Esse otimismo, no entanto, só se transformará em resultados se conseguirmos evoluir nossas métricas de liderança. Não basta medir apenas entregas; é preciso medir a capacidade de sustentar essas entregas no longo prazo.
A urgência da mudança
Diante de todas essas evidências, a pergunta não é "como medir produtividade?", mas sim: "como medir liderança eficaz?". 52% das situações que impedem a ascensão profissional estão ligadas à necessidade de melhorar habilidades de comunicação (18,1%), falta de clareza sobre critérios de promoção e ausência de mentoria.
Como líder no mercado tech, convido outros executivos a repensarem suas métricas. O futuro da liderança não está apenas em entregar mais, mas em entregar melhor, de forma sustentável e criando contexto para que as equipes prosperem.
A transformação digital chegou ao mercado de trabalho. Agora é hora de digitalizar também nossa forma de liderar.
